«Monstrópolis tem muitas semelhanças com o nosso mundo e está à distância de um portal»

Com chancela da Booksmile, A FAMÍLIA MONSTRO é uma nova coleção infantojuvenil 100% portuguesa, escrita por Bruno Matos e ilustrada por Raquel Carrilho. Conversámos com ambos sobre o universo destas histórias «monstruosamente divertidas», com personagens inspiradas em heróis clássicos e mitológicos, e cuja ação decorre em Monstrópolis, «um espelho do nosso mundo, polvilhado com monstros e magia». 

Qual é o vosso percurso na área da escrita e da ilustração?

(Bruno Matos) Sempre fui apaixonado por criar histórias, começando por fazer banda desenhada ainda antes de saber ler e escrever, mas foram obras como O Senhor dos Anéis e principalmente os primeiros livros do Harry Potter (antes de se tornar num fenómeno global) que me levaram a experimentar a escrita. Publiquei o meu primeiro romance infantojuvenil em 2001 e mantenho um webcomic com um super-herói português, o Lusitano.

(Raquel Carrilho) Comecei a desenhar muito cedo e a tirar ideias daquilo que via à minha volta, inclusivamente dos desenhos animados, que aliás ainda são uma grande influência em tudo o que faço. A verdade é que nunca pensei que viria a fazer isto profissionalmente (era uma nódoa a E.V.T. e E.V.!), por isso nunca procurei formação específica na área. À medida que ganhava mais referências, perdia medos e fazia experiências, fui melhorando ao longo dos anos até chegar ao ponto em que estou hoje. É verdade que ainda tenho muito para aprender, mas estou determinada a nunca deixar de o fazer.

Como nasceu a ideia da Família Monstro? Onde foram buscar inspiração?

(BM) Coleções como Os Cinco, Os Sete, Uma Aventura e Viagens no Tempo acompanharam o meu crescimento. Por outro lado, adoro livros de fantasia e de ficção científica. Quando a Booksmile me desafiou a criar uma nova coleção, tentei juntar todas essas influências num universo que fosse divertido, desafiante e, principalmente, original.

(RC) Quando me tornei parte do projeto, já a ideia e as personagens estavam bem definidas, por isso não posso dizer grande coisa a esse respeito. Quanto à parte que me toca, a do design dos personagens em particular, fui à procura de representações diferentes dos monstros essenciais de Halloween. Desde os filmes clássicos da Universal, até Scooby-Doo e Monster High, tentei pegar em vários elementos, criar a minha versão, e adaptá-los àquilo que o Bruno já tinha como base. Uma série que me tem surgido várias vezes na cabeça quando desenho é Courage the Cowardly Dog, que repetiu no Cartoon Network até... 2010, se não me engano? Adiante, tinha um ambiente surreal e tresloucado que acho que combina bem com uma história sobre monstros.

Qual é a vossa personagem favorita?

(BM) É difícil escolher uma porque cada personagem tem caraterísticas específicas que por si só já fazem dela um monstro especial, mas que, combinadas com os outros, formam uma família unida. Mas suspeito que o Flic vai ser um favorito dos leitores...

(RC) Acho que diria a Mizé. É divertida de se desenhar e faz-me lembrar as protagonistas de anime de raparigas mágicas, até no pormenor de de repente se ter de adaptar a um mundo diferente do que ela conhece. 

Acham que as crianças se vão identificar com estas histórias? Porquê?

(BM) Monstrópolis tem muitas semelhanças com o nosso mundo e está à distância de um portal. As personagens enfrentam os mesmos dilemas dos leitores, usam a mesma tecnologia e partilham sentimentos semelhantes. É um espelho do mundo que conhecem, mas polvilhado com monstros e magia que lhes permite imaginar-se numa realidade diferente.

(RC) Acho que sim. Quando eu era pequena, tinha um medo desgraçado de monstros e afins, por isso infelizmente não posso dizer que teria sido a audiência ideal para esta coleção. Mas também sei que há muitos miúdos que não são como eu era, e que de certeza que vão gostar da variedade de personagens, sejam eles monstros ou não (as personagens, não os miúdos). 

De que forma os pais e os professores podem pegar nesta coleção para ler com os filhos e alunos? Tem uma vertente pedagógica?

(BM) Para além dos muitos temas atuais retratados, multiplicam-se as referências a monstros clássicos e figuras mitológicas. Numa leitura partilhada, os leitores poderão estar a conhecê-los pela primeira vez enquanto para os pais será um revisitar de personagens que fazem parte do seu imaginário. Ao nível da escrita, tento incluir palavras menos usadas para ajudar a alargar o léxico dos leitores e, na secção final de cada obra, tivemos o cuidado de acrescentar material pedagógico como sugestões de leitura, curiosidades sobre livros e uma diversidade de atividades que contribuem para o desenvolvimento intelectual do leitor e estimulam a criatividade.

(RC) Dado o meu viés para a animação, e daí para dobragens/voice over, eu diria que uma boa forma de tornar a leitura divertida seria fazer várias vozes diferentes para os personagens, ou, tendo as crianças já idade para ler, distribuir personagens entre elas, os pais e/ou professores. Fazer como se fosse uma espécie de teatro com narrador!

Esta família parece escapar ao modelo da família tradicional. Houve alguma intenção de mostrar diversidade e representatividade?

(BM) Quando nos lembramos dos protagonistas nos livros juvenis, grande parte são amigos ou familiares (irmãos ou primos) e os pais não têm influência no decorrer da aventura. Seguindo o princípio de querer fazer algo original, lembrei-me de homenagear as famílias de acolhimento, pelo amor que dão a crianças que recebem de diferentes realidades. Também a Mamã Ogre acolhe monstros com origens díspares, formando uma família ligada exclusivamente por um amor altruísta onde ela não se limita a um papel secundário, contribuindo para o desenvolvimento e crescimento dos "filhos".+

(RC) Acho que era isso que o Bruno tinha em mente, sim. Pelo menos na parte do desenho, tentei fazer com que as personagens parecessem distintas para enfatizar essa ideia. Digamos que, dado que estamos a falar sobre monstros, que já por si aparecem em todo o tipo de formas e feitios por esse mundo fora (tal como as pessoas!), acabou por não ser muito difícil.

Como é que autor e ilustradora articulam a colaboração? Quais os métodos de trabalho?

(BM) Com o meu historial na banda desenhada, é normal que visualize os personagens ao detalhe, mas embora tenha feito algumas sugestões sobre os protagonistas, era vital deixar a imaginação da Raquel livre para conceber o universo de Monstrópolis sem qualquer interferência, e o seu estilo de desenho traduz bem a minha visão de Monstrópolis.

(RC) Pode parecer estranho, mas eu e o Bruno não contactamos um com o outro com muita frequência. Aquilo que eu faço é ler o texto do Bruno e tento interpretá-lo daquela que me parece ser a melhor maneira. Até agora tem dado resultado!